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No fio das águas

No fio das águas

Por
Clarice Averbuck
Editora
AGE
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Sinopse

Cartografia de um processo de escritura

Há momentos de leveza que é como brincar à beira da praia descobrindo conchas, excertos de cantatas não nascidas, o sonho do gerânio na sombra das varandas... Há ainda travessias nas cinzas, caminhos por desestradas, desterro de vertigens... até que algo se transforma e a escritura começa a correr na nossa frente, como cavalos selvagens. Se deixamos, eles trespassam o horizonte, levando-nos mar e céu adentro. 

Quando escrevo, vou por onde não sei, sigo o fio das águas que me navegam, apreendo o instante, o que me captura, leve ou grave, prazeroso como a respiração do mar das ressacas. Quando sinto que o movimento já não é, como no adormecer da onda, aparece o título, incontornável, porque nasce de mãos dadas com o texto e comigo. 

O ato de escritura constrói o pensamento e nos informa sobre nós, abrindo um campo até então inexistente, a não ser em forma virtual. Aparentado com a música e a virtualidade do tempo que ela cria, expande nosso mundo dentro e fora. A escritura brota depurada do supérfluo, agasalhada por amor resgatado. Entre os lírios do campo, brancos como são brancos os raios do candeeiro sobre a mesa sóbria do poeta, derrama-se na folha em branco. No entremeio, como nos pátios de jardins da infância, brincam outros lírios, coloridos como buquês de sol, alegres, agitados, nem sempre apaziguando a florzinha tímida, desamparada à beira do encontro. 

No hiato, confim dos silêncios, se miram e se falam o estrangeiro e o familiar, ontem e devir, perto e longe, constituindo a trama identitária do texto na fluidez de meus espelhos, passarela de sonhos e encontros, enquanto se expandem e se abraçam centelhas de presente vivificado, em inauditos provisórios encontrar, por um processo não sei bem ainda qual, mas assim é. 

Clarice Averbuck

Lyon, novembro de 2020