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E-books

De corpos e afetos

Transferências e clínica psicanalítica
Por
Eliana Schueler Reis
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Sinopse

Toda clínica envolve um paradoxo. Se ela pretende acolher quem demanda uma cura, essa cura não deixa de ser, como bem lembra Tobie Nathan, algo que violenta a ordem do universo. Inclinar-se sobre o leito de quem sofre (esse é o sentido etimológico da palavra clínica) para despojá-lo de suas estratégias de existência exercidas até então envolve tanto acolhimento quanto violência.

Tal paradoxo aparece com mais força ainda na clínica psicanalítica, na qual a violência da cura implica a alma. Quando a psique está em jogo, a cura diz respeito a um novo modo de subjetivar-se, à constituição de uma nova forma de existência, em suma, à criação de si. E como toda criação, é necessariamente transgressiva, pois rompe com a esfera do conhecido e do habitual. Fabricar outra modulação subjetiva não é desvelar as verdades mais profundas de um indivíduo; ao contrário,é combater o sistema de crenças que fundamentava essas verdades, possibilitando outras escolhas. Esse combate não pode ser travado por um indivíduo solitário, pois as forças para exercê-lo se forjam em uma relação. Nesse caso, a violência da cura é, antes de tudo, a violência de um encontro. De um estranho encontro, que a um só tempo acolhe e guerreia. O que se põe em jogo nessa cena? Que elementos participam do combate? E como manejá-lo, para que nele se produza uma nova forma de existência?

Abordando questões como essas, Eliana Schueler Reis toca o ponto nodal da proposta psicanalítica: a cura pela transferência. Se é verdade que a psicanálise pode ser definida como um tratamento anímico, isso não significa dizer simplesmente que ela incide sobre a alma – ela não foi inventada para tratar os males que se expressavam nos corpos das histéricas? –, mas antes que parte da alma para curar. Da alma de quem? Sem dúvida do paciente, mas também da alma do analista, já que a cura se dá no encontro transferencial. A alma, porém, não deve ser entendida aqui como um espírito desencarnado que, a priori, dirigiria os processos corporais ou que, a posteriori, a eles forneceria um sentido.